Ações conjuntas impulsionam o debate

no mês da Consciência Negra

Por: Bruna Cordeiro - ASCOM Opará

28/11/2017

 

Já ficou velho o ditado que afirma: A união faz a força! E no mês da Consciência Negra, ações integradas fortalecem não só o debate isoladamente, mas o movimento nacional e mundial pelo fim do racismo estrutural e institucional. “O Novembro Negro é a reafirmação dos compromissos que assumimos o ano inteiro, pois o racismo interfere em nossas vidas diuturnamente. Por isso a responsabilidade de uma agenda cheia, estar em tantos espaços num curto período de tempo. A gente que é da correria, sabe que participar de eventos não significa ganhar mais uma figurinha pra completar o álbum: é dialogar com nosso povo, reavivar nossos laços de compromisso e empoderamento coletivo. Ouvir, mas também exercer a prática da fala que há séculos nos é negada por essa sociedade.”  (Lorena Cerqueira - Projeto Novembro Negro).

Pelo fim do racismo estrutural e institucional, o Ilmo. Sr. Reitor José Bites de Carvalho afirma: A UNEB é negra e, de todxs!

20 de Novembro, Dia da Consciência Negra! Assim, deveriam ser todos os dias! Entretanto, a sociedade brasileira tem testemunhado, infelizmente, uma publicização de posicionamentos preconceituosos, racistas e de ódio, levando-nos a crer que vivemos uma onda conservadora e reacionária. Com efeito, a gravidade e a recorrência de tantos fatos atentatórios contra a população negra apontam, acredito, para algo ainda mais grave: evidenciam, mais uma vez, que persiste, em nosso país, uma organização de sociedade que segue ainda fundada em uma divisão social historicamente pautada na cor da pele.

Enfrentamos mais um, dentre tantos, movimentos de exclusão que, em contextos políticos oportunos, resolve, sem pudores, mostrar a sua face mais agressiva e retrógrada. Trata-se de um movimento dentro de uma sociabilidade estrutural, inscrita em nossa história e em um projeto segregacionista de nação que marginaliza e exclui, de todas as formas, milhões de pessoas.

Por isso, é dia de reafirmar as conquistas, estando cientes de tantas frentes ainda a vencer e de demarcar posições de resistência e de luta. No contexto de retirada de direitos, de ameaça à seguridade social e à vida digna, precisamos atuar na defesa de uma educação emancipatória rumo a uma sociedade mais justa e de reparação das diferenças.

A Universidade do Estado da Bahia atua nessa direção, por missão institucional e pela razão da sua existência e da sua ação em toda a Bahia. Cientes dessa responsabilidade, vamos seguiremos na defesa da igualdade, da justiça e da pluralidade para qualificar, todos os dias, a UNEB como universidade negra e como lugar de transformação.

 

20 de novembro de 2017

José Bites de Carvalho
Reitor da UNEB

Importante reflexão!

Com muita lucidez, Lorena Cerqueira

Hoje é o dia da Consciência Negra. Zumbi e Dandara dos Palmares, estão presentes em nossa ancestralidade de luta e resistência. Hoje, diríamos também que é o dia da "Paciência Negra", onde ouvimos aquelas frases prontas "somos todos iguais" ou "sou a favor da consciência humana". Por vezes dá agonia ouvir/ler isso, mas quando penso na nossa trajetória política/educacional que ainda luta por uma aplicabilidade da lei 11.645, a gente entende por que é muito mais fácil expressar uma opinião "neutra" do que embasar a realidade. E a real, meus amigxs é que precisamos pensar o ser negra/o para além da questão de pigmentação e sim na condição social. Qual lugar ocupamos nesta sociedade? Se somos 53% da população, em quais espaços estamos representadas/os enquanto maioria?

Vamos fazer uma reflexão?

·         A chance de uma pessoa negra ser analfabeta, é 5 vezes maior do que uma pessoa branca.

·         Somente 1 a cada 4 pessoas com ensino superior é negra.

·         70% das pessoas que vivem em situação de extrema pobreza no país, são negras.

·         A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil.

·         Entre as mulheres assassinadas no Brasil, 60% são pretas ou pardas.Duas vezes mais chances de serem assassinadas que as mulheres brancas.

·         58,86% das mulheres vítimas de violência doméstica são negras.

Esses são apenas alguns dados que me vem à mente agora. Mas, olhe ao seu redor: quantos dos cargos chamados de "poder" são ocupados por nós? Quantas das nossas/os estão no subemprego? Quantos somos vitimadas /ose criminalizadas/os nas batidas policiais? Quantas vezes já foi seguida/o pelos seguranças em lojas e/ou shopping, por que a cor da sua pele já denuncia sua índole?

Quantas vezes a cor da sua pele, seu estereótipo, foram assimilados a algo negativo/depreciativo? "lista negra" "da cor do pecado" "cabelo ruim" "cabelo duro" "negra de traços finos" "a coisa tá preta" "serviço de preto", etc. Muitas de nós ainda reproduzem esse tipo de expressão inconscientemente. É racismo!

O objetivo dessas palavras é trazer a reflexão em um dia tão importante para a luta negra. Penso o 20 de novembro como um dia de luta e afirmação de negritude sim, mas um dia que possamos também dialogar com as/os nossas/os e mostrar que o auto cuidado, as redes de solidariedade são importantes. Travamos uma luta diária por reconhecer a carga negativa que o racismo nos despeja diariamente, mas ainda temos por ai, irmãos e irmãs que recebem esta mesma carga e culpabilizam a si mesmos pelo que são.

Pensando no Ilê Aiyê e todas as suas composições marcantes, "população magoada, a nossa honra tem que ser lavada!". Vamos cuidar de nós, numa perspectiva de amor próprio, pra que a gente possa externalizar isso pro mundo e cuidar das/os nossas/os também. Afinal, amor também é combustível pra revolução, ainda que "a liberdade pareça com a linha do Equador", lutar pra nós é questão de sobrevivência.

 

Lorena Cerqueira é  é  Educadora para as relações Étnico-raciais e de Gênero.

 

 

Enfrentamento ao racismo e consciência negra: e a comunicação com isso?

Por: Cecília Bezerra Sousa

 

Hoje é véspera do 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. Dia em que Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, foi perseguido e morto, no ano de 1695. Embora a data venha sendo lembrada há tempos pelo Movimento Negro, apenas em 2003 foi reconhecida oficialmente pelo Estado brasileiro, por meio da Lei n°10.639, que inclui a data no calendário escolar nacional. E só em 2011 a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei n° 12.519, que cria oficialmente a data, sem obrigatoriedade de feriado. Mesmo assim, um total de 1.047 municípios já decretou feriado para o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra.

Para além da reflexão sobre a contribuição que a população negra teve e tem na construção da sociedade, da economia e da cultura brasileiras, a data serve também para lembrar que a desigualdade racial é estruturante na formação da nossa sociedade, e que o desenvolvimento de políticas de enfrentamento ao racismo e de promoção da igualdade racial são primordiais.

E o que isso tem a ver com comunicação? Muita coisa. Porque, se consciência negra tem a ver com enfrentamento ao racismo, e o racismo é frequentemente produzido e reproduzido pelos discursos midiáticos, não há como enfrentá-lo sem também reconhecer a necessidade de mudanças na comunicação de massa no Brasil, tradicionalmente branca, concentrada, de natureza familiar e elitista.

Como se não bastasse o histórico de escravização, que tem notórios reflexos sobre a situação de inferioridade socioeconômica e cultural em que a população negra brasileira se encontra hoje, esta população ainda luta, em pleno século XXI, contra o racismo midiático, que elabora e reforça os preconceitos. Este racismo velado (ou não) atua com primazia para reforçar a invisibilidade, a inferiorização e a estigmatização da população negra brasileira nos meios de comunicação. A negação da existência do racismo, que contribui para a sua reprodução, também faz parte da forma de atuação desta grande mídia.

Em sua história de lutas, o Movimento Negro Brasileiro conquistou grandes avanços institucionais, como as políticas de ação afirmativa para a inclusão de negros e negras nas universidades e a criação Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, um órgão com status de ministério que, entre outras coisas, atua na formulação, coordenação e articulação de políticas e diretrizes para a promoção da igualdade racial.

Por outro lado, não é fácil esses avanços e políticas se consolidarem se, no cenário midiático, o racismo é negado; negros e negras representam papéis subalternos nos enredos; programas evangélicos demonizam as religiões de matriz africana; a publicidade vende como nunca a mulher negra; revistas e comerciais exaltam o padrão de beleza eurocêntrico e vendem a família branca, urbana e de classe média como ideal de felicidade.

Não à toa, diversas propostas de legislação e políticas públicas vêm surgindo como fruto do aprofundamento dos debates envolvendo a questão racial e a comunicação. O Estatuto da Igualdade Racial conta com um capítulo sobre Comunicação Social. As três edições da Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Conapir) e a 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) aprovaram resoluções que recomendam políticas públicas de comunicação voltadas para o combate ao racismo e a promoção da igualdade racial. Destaca-se também a presença de artigos contemplando a questão racial no Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Mídia Democrática, formulado pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação em conjunto com diversas outras entidades da sociedade civil, diversas diretamente ligadas à pauta racial.

A democratização da comunicação é, portanto, questão estratégica e fundamental para o enfrentamento ao racismo e a consolidação das políticas de promoção da igualdade racial no Brasil. Continua urgente uma regulação que coíba o racismo de fato na mídia, que reavalie a manutenção de concessões de rádio e TV que praticam o racismo em sua programação, que garanta o direito à diversidade étnica na mídia e a uma formação que incorpore o debate sobre a questão racial nos cursos de Comunicação Social.

Sem uma mídia que se comprometa com a afirmação da diversidade da população brasileira e com o caráter público da comunicação, a negação do racismo, a inferiorização, estigmatização e invisibilidade da população negra continuarão presentes na pauta, nas linhas, imagens e discursos da mídia brasileira.

* Cecília Bizerra Sousa é jornalista, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasília, militante do Movimento Negro e integrante do Intervozes.

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